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Pesquisa com médicos: como ouvir esse público?

Pesquisa com médicos: como ouvir esse público?

Pesquisa com médicos

Uma pesquisa com médicos permite compreender um público profissional que ocupa uma posição particular no mercado de saúde.

Além de conhecer profundamente os produtos, serviços e processos relacionados à sua área de atuação, o médico toma decisões influenciadas por experiência clínica, evidências, rotina profissional, relacionamento com pacientes, instituições de saúde, operadoras, fornecedores e mudanças no próprio setor.

Por isso, empresas que atuam na indústria farmacêutica, tecnologia em saúde, hospitais, clínicas, planos de saúde, equipamentos médicos, educação médica e outros segmentos relacionados precisam de informações específicas para entender como esses profissionais percebem produtos, serviços e tendências.

Ouvir médicos, entretanto, não significa simplesmente aplicar um questionário para pessoas que possuem formação em Medicina.

Uma pesquisa relevante depende da definição correta do público, da seleção dos participantes, da elaboração das perguntas e da metodologia utilizada para transformar respostas individuais em informações que possam apoiar decisões.

No Brasil, o Conselho Federal de Medicina mantém uma ferramenta oficial de consulta que permite pesquisar profissionais por nome, UF, CRM, município, situação, especialidade e área de atuação, mostrando como a segmentação profissional é importante quando se pretende identificar um determinado perfil médico.

A seguir, veja como estruturar uma pesquisa com médicos desde a definição do objetivo até o recrutamento dos participantes.

Em quais situações uma empresa precisa ouvir médicos?

Uma empresa precisa ouvir médicos sempre que as decisões do negócio dependerem, direta ou indiretamente, da experiência, da percepção ou do comportamento desses profissionais.

Isso pode acontecer em diferentes etapas do desenvolvimento de um produto ou serviço. Antes de lançar uma solução, por exemplo, a pesquisa pode ajudar a identificar necessidades ainda não atendidas e entender quais características são consideradas relevantes pelos profissionais.

Depois do lançamento, o estudo pode investigar satisfação, percepção de valor, dificuldades de utilização e oportunidades de melhoria.

A pesquisa também pode ser utilizada quando uma empresa pretende compreender mudanças no mercado. Novas tecnologias, ferramentas digitais, inteligência artificial, alterações regulatórias e mudanças nos modelos de atendimento podem modificar a rotina dos profissionais e, consequentemente, suas necessidades.

Desenvolvimento de produtos e serviços

Antes de desenvolver uma solução para o mercado médico, é importante compreender o problema que ela pretende resolver.

Uma pesquisa exploratória pode revelar dificuldades presentes na rotina profissional, processos considerados ineficientes e necessidades que ainda não estão sendo atendidas.

Nesse contexto, ouvir médicos ajuda a evitar que uma empresa desenvolva uma solução baseada exclusivamente em hipóteses internas.

Teste de conceitos

Uma ideia pode parecer relevante para uma empresa e não apresentar a mesma importância para quem trabalha diariamente na área.

Pesquisas com médicos podem ser utilizadas para apresentar conceitos de produtos, serviços, plataformas, equipamentos ou funcionalidades e avaliar como diferentes perfis profissionais reagem a essas propostas.

O objetivo não deve ser apenas perguntar se o médico “gostou” da ideia. É mais útil investigar quais características despertam interesse, quais geram dúvidas, quais problemas permanecem sem solução e em quais situações o produto seria efetivamente utilizado.

Avaliação de produtos e serviços existentes

Empresas que já possuem uma solução no mercado também podem utilizar pesquisas para compreender a experiência dos profissionais.

Nesse caso, podem ser investigados aspectos como facilidade de utilização, percepção de qualidade, confiança, satisfação, suporte, atendimento, disponibilidade, custo e intenção de continuar utilizando determinada solução.

Estudos de mercado e análise de tendências

A opinião dos médicos também pode contribuir para compreender transformações no setor de saúde.

Uma pesquisa pode investigar, por exemplo, a adoção de novas tecnologias, mudanças nos processos de trabalho, utilização de ferramentas digitais, percepção sobre inteligência artificial ou novas necessidades relacionadas ao atendimento.

É importante, porém, diferenciar percepção profissional de evidência clínica. A resposta de médicos pode explicar como determinado fenômeno é percebido ou vivenciado por profissionais, mas isso não significa, por si só, comprovar a eficácia clínica de uma tecnologia ou tratamento.

Posicionamento e comunicação

Outro uso possível é avaliar como uma marca ou produto é percebido entre profissionais de saúde. Nesse caso, a pesquisa pode investigar reconhecimento de marca, associações, atributos percebidos, diferenciação e critérios utilizados na escolha de produtos ou serviços.

A informação pode ajudar a identificar diferenças entre o posicionamento desejado pela empresa e a percepção efetivamente observada entre os profissionais.

Quais informações podem ser obtidas em uma pesquisa com médicos?

Uma pesquisa com médicos pode gerar informações sobre perfil profissional, comportamento, necessidades, percepção, hábitos, experiência, satisfação, preferências e intenção, desde que cada dimensão seja investigada por perguntas adequadas.

O primeiro cuidado é definir o que a pesquisa realmente precisa descobrir. Um questionário que tenta investigar todos esses aspectos simultaneamente pode se tornar longo, cansativo e pouco eficiente.

Entre as informações que podem ser obtidas estão:

  • especialidade e área de atuação;
  • tempo de formação;
  • região de atuação;
  • tipo de estabelecimento em que trabalha;
  • vínculo profissional;
  • rotina de trabalho;
  • utilização de produtos ou tecnologias;
  • critérios de escolha;
  • frequência de utilização;
  • percepção sobre marcas;
  • satisfação com produtos e serviços;
  • dificuldades encontradas na rotina;
  • necessidades ainda não atendidas;
  • percepção sobre tendências;
  • intenção de adoção de novas soluções;
  • avaliação de conceitos e protótipos;
  • experiência com determinadas empresas ou serviços.

A segmentação profissional merece atenção porque “médicos” não representa um grupo homogêneo. Especialidade, local de atuação, experiência profissional e contexto de trabalho podem alterar significativamente as respostas.

Como criar uma pesquisa para médicos?

Uma boa pesquisa começa antes do questionário. O primeiro passo é transformar uma necessidade de negócio em um objetivo de pesquisa específico.

Em vez de começar com “precisamos saber o que os médicos pensam”, a empresa deve formular uma pergunta mais precisa, como: “Quais fatores influenciam a adoção de determinada tecnologia entre médicos de determinada especialidade?”

Essa definição orientará todas as etapas seguintes.

1. Defina o problema de pesquisa

Pergunte qual decisão a empresa pretende tomar depois de obter os resultados. Se a resposta não estiver clara, existe o risco de coletar muitas informações que não serão utilizadas.

2. Estabeleça os objetivos

Os objetivos devem indicar exatamente o que será investigado. Por exemplo:

  • compreender os principais critérios de escolha;
  • avaliar a percepção sobre determinada solução;
  • identificar barreiras à adoção;
  • comparar percepções entre especialidades;
  • medir satisfação;
  • avaliar um novo conceito.

3. Defina a metodologia

Dependendo do objetivo, a metodologia da pesquisa pode ser quantitativa, qualitativa ou combinar diferentes abordagens.

A pesquisa quantitativa é adequada quando se pretende medir frequência, distribuição de opiniões ou diferenças entre grupos.

Já a qualitativa pode aprofundar motivações, experiências e percepções que não seriam completamente capturadas por perguntas fechadas.

Entrevistas em profundidade, por exemplo, podem ser úteis quando ainda existe pouca informação sobre determinado problema.

Um questionário estruturado pode fazer mais sentido quando as hipóteses já estão suficientemente definidas e precisam ser medidas em uma amostra maior.

4. Crie perguntas objetivas

Perguntas longas, ambíguas ou que misturam duas questões dificultam a interpretação das respostas.

Compare: “Você considera que nosso produto é inovador, eficiente e fácil de utilizar?”

Essa pergunta reúne pelo menos três atributos diferentes. Uma abordagem metodologicamente mais adequada seria avaliar inovação, eficiência e facilidade de uso separadamente.

5. Faça um pré-teste

Antes de colocar o questionário em campo, aplique um teste com uma pequena parcela do público ou com pessoas que conheçam profundamente o perfil pesquisado.

O pré-teste ajuda a identificar perguntas confusas, alternativas de resposta incompletas, problemas de lógica e questionários excessivamente longos.

Como definir o perfil dos médicos que participarão?

Definir o perfil dos participantes é uma das etapas mais importantes de uma pesquisa com médicos, porque a qualidade da amostra depende da correspondência entre os participantes e a população que a pesquisa pretende representar ou compreender.

Não existe um perfil universal de “médico ideal” para uma pesquisa. O perfil depende do problema investigado. Se o estudo avalia uma tecnologia utilizada em determinada especialidade, por exemplo, pode ser necessário selecionar apenas profissionais daquela área. Se o objetivo é compreender uma tendência mais ampla, pode ser necessário incluir diferentes especialidades.

Alguns critérios frequentemente utilizados são:

Especialidade: Pode ser o principal critério de seleção quando o tema possui relação direta com uma área médica específica.

Região: A localização pode ser relevante porque disponibilidade de serviços, estrutura de atendimento e características do mercado podem variar entre regiões.

Tempo de formação: Médicos em diferentes momentos da carreira podem apresentar experiências profissionais distintas.

Local de atuação: Pode ser importante diferenciar profissionais que trabalham em hospitais, clínicas, consultórios, instituições públicas ou privadas, por exemplo.

Uso de determinado produto ou serviço: Se a pesquisa pretende avaliar uma solução específica, é necessário confirmar se o participante realmente possui experiência relevante com ela.

Critérios de inclusão e exclusão

Antes da coleta, documente quem pode participar e quem deve ser excluído. Essa definição reduz ambiguidades durante o recrutamento e ajuda a preservar a consistência da amostra.

Também é importante evitar a conclusão de que uma amostra representa todos os médicos brasileiros quando ela foi recrutada apenas em determinadas regiões, especialidades ou canais. A representatividade precisa ser avaliada de acordo com o desenho amostral e o universo definido para o estudo.

Onde encontrar médicos para uma pesquisa?

Encontrar médicos pode ser uma das maiores dificuldades de um estudo, especialmente quando a pesquisa exige uma combinação específica de especialidade, região, experiência e utilização de determinado produto.

Uma possibilidade é utilizar bases e contatos institucionais, desde que o processo de recrutamento respeite as regras aplicáveis de privacidade e utilização de dados.

O CFM disponibiliza uma ferramenta oficial de busca que permite consultar médicos por diferentes critérios, incluindo UF, município, situação, especialidade e área de atuação.

A ferramenta é útil para verificar informações profissionais disponíveis publicamente, mas isso não significa que seus dados possam ser utilizados indiscriminadamente para fins de recrutamento.

Outra alternativa é trabalhar com painéis de respondentes, especialmente quando a pesquisa precisa alcançar um perfil profissional específico em determinado prazo.

Um painel funciona como uma base estruturada de participantes previamente cadastrados e perfilados. A partir das informações disponíveis sobre cada respondente, a pesquisa pode ser direcionada para pessoas que atendam aos critérios definidos para o estudo.

Para pesquisas profissionais, o ponto central não é simplesmente encontrar um grande número de participantes. É necessário verificar se o painel consegue alcançar os perfis realmente necessários, como determinada especialidade, região, experiência profissional ou relação com produtos e serviços específicos.

Quais perguntas fazer em uma pesquisa com médicos?

As perguntas devem ser construídas a partir dos objetivos da pesquisa, e não apenas de uma lista genérica de perguntas para médicos.

Ainda assim, alguns exemplos podem ajudar a estruturar o questionário.

Para entender o perfil profissional

  • “Qual é a sua principal especialidade médica?”
  • “Há quanto tempo você atua profissionalmente?”
  • “Em quais tipos de estabelecimentos você exerce sua atividade?”
  • “Em qual região do Brasil você atua predominantemente?”

Para compreender comportamento

  • “Com que frequência você utiliza [produto, serviço ou tecnologia] em sua rotina profissional?”
  • “Quais fatores são mais importantes para você ao escolher uma solução dessa categoria?”
  • “Quais fontes você costuma consultar antes de adotar uma nova solução?”

Para avaliar percepção

  • “Como você avalia a experiência com [produto ou serviço]?”
  • “Quais características você considera mais relevantes nessa solução?”
  • “Quais aspectos poderiam ser melhorados?”

Para investigar barreiras

  • “Qual é o principal fator que dificulta a adoção de [solução]?”
  • “O que faria você considerar a utilização dessa tecnologia em sua rotina?”
  • “Existe alguma preocupação que impeça ou dificulte sua utilização?”

Para avaliar conceitos

  • “Considerando o conceito apresentado, qual seria a sua percepção sobre a proposta?”
  • “Em qual situação você utilizaria essa solução?”
  • “Qual característica da proposta seria mais relevante para sua rotina?”

É importante evitar perguntas que induzam a resposta. Em vez de perguntar “Você concorda que essa tecnologia melhora o atendimento?”, uma alternativa mais neutra pode ser “Como você avalia o possível impacto dessa tecnologia no atendimento?”

A diferença parece pequena, mas influencia a qualidade da informação obtida.

Cuidados metodológicos em uma pesquisa com médicos

Pesquisas com profissionais de saúde exigem atenção adicional quando envolvem informações relacionadas a pacientes, prontuários, dados clínicos ou outros dados pessoais.

A LGPD estabelece regras para o tratamento de dados pessoais e protege direitos relacionados à liberdade e à privacidade das pessoas. Por isso, a empresa precisa avaliar quais dados serão coletados, para qual finalidade, como serão utilizados e quais medidas de proteção serão aplicadas.

Também é necessário distinguir pesquisa de mercado de pesquisa científica envolvendo a saúde. Quando um estudo se enquadra nas regras aplicáveis à pesquisa científica com seres humanos, podem existir exigências específicas de análise ética. O sistema CEP/Conep é responsável pela análise ética de pesquisas desse tipo no Brasil.

Outro cuidado importante está na qualidade das respostas. Uma pesquisa pode ter um questionário tecnicamente bem elaborado e ainda apresentar problemas se participantes inadequados forem incluídos na amostra.

Por isso, processos de triagem, validação, controle de duplicidade, identificação de respostas inconsistentes e acompanhamento da qualidade da coleta são importantes.

O tamanho da amostra também não deve ser definido apenas pelo número de pessoas disponíveis. Ele precisa considerar o universo estudado, o objetivo da pesquisa, o nível de precisão desejado, a metodologia e a possibilidade de realizar análises por subgrupos.

Como transformar as respostas dos médicos em insights?

Coletar respostas é apenas uma parte do processo. O valor da pesquisa aparece quando os dados são analisados de maneira coerente com o objetivo do estudo.

Em uma pesquisa quantitativa, pode ser necessário observar frequências, médias, distribuições, cruzamentos e diferenças entre grupos. Uma análise por especialidade, por exemplo, pode revelar comportamentos diferentes que desapareceriam quando todos os médicos fossem analisados como um único grupo.

Na pesquisa qualitativa, a análise pode buscar padrões recorrentes nas entrevistas, diferenças de percepção, necessidades e argumentos utilizados pelos participantes.

Em ambos os casos, é importante não transformar uma associação observada em uma relação de causa e efeito sem evidências suficientes.

Imagine que médicos de determinada especialidade demonstrem maior interesse por uma tecnologia. Esse resultado mostra uma associação dentro daquela amostra. Para afirmar que a especialidade é a causa da maior intenção de adoção, seriam necessárias evidências e um desenho de pesquisa compatível com essa conclusão.

A análise deve, portanto, preservar a diferença entre o que os dados mostram e o que eles permitem interpretar.

Pesquisa com médicos: ouvir antes de decidir

Uma empresa que atua no mercado de saúde pode conhecer profundamente seu próprio produto e ainda assim não compreender completamente a experiência de quem o utiliza.

A pesquisa com médicos cria uma oportunidade para reduzir essa distância. Quando o estudo começa com um objetivo claro, define adequadamente a população, seleciona participantes compatíveis, utiliza perguntas neutras e aplica controles de qualidade, as respostas deixam de ser apenas opiniões isoladas e passam a formar uma base de informação para decisões mais estruturadas.

O mais importante é não tratar os médicos como um grupo homogêneo. Especialidade, experiência, região, ambiente de trabalho e relação com determinada categoria podem modificar percepções e comportamentos.

Por isso, uma pesquisa bem planejada não procura simplesmente “ouvir médicos”. Ela procura ouvir os médicos certos, pelas perguntas certas, dentro de um desenho metodológico adequado ao problema que a empresa precisa resolver.

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